28.3.13

As Pequenas Mortes no Jornal O Globo, coluna José Castelo




As algemas do pensamento 
José Castello — Prosa e Verso (O Globo) 16/03/2013


Ideias fixas são terríveis grilhões. Não passam de algemas invisíveis, aparentemente inofensivas, mas que podem deter e congelar uma vida. É o que experimenta o compositor Felipe Werle, protagonista de As Pequenas Mortes (Rocco), romance de Wesley Peres. O infeliz Felipe – sem nenhuma prova disso – tem certeza de que morrerá precocemente de câncer. Atribui sua certeza ao acidente com o Césio 137 em Goiânia, cidade em que nasceu, ocorrido no mês de setembro de 1987. O mais grave episódio de contaminação por radioatividade registrado na história brasileira.

Em 1987, Felipe Werle tinha 12 anos. Nunca mais se livrou da ideia de que está prestes a morrer. Tem sua vida arrastada por uma obsessão: a de que não lhe faltam muitos dias. Sabe que não consegue se livrar de seu grilhão, que “fez de mim um paranóico”. A doença imaginária se duplicou em uma doença verdadeira. Às vezes, porém, alimenta a ilusão de que a paranoia o protege contra o câncer. Se está delirando, não está doente, consola-se. E afunda ainda mais.

Felipe não consegue separar a mente do corpo. Compara-se a Daniel Paul Schreber, o célebre paciente de Sigmund Freud, mais famoso paranoico da História. O paralelo, contudo, não o salva, nem o alivia. Como Benedito Schreber, o pai de Paul, ele acredita que os males da alma provêm de distúrbios no corpo físico, e por isso ele teria o espírito para sempre condenado. O pai de Paul Schreber acreditava numa “correção da alma” mediante a correção ortopédica do corpo. O que o levou a dedicar a vida à invenção de máquinas de reeducação corporal.

O infeliz Felipe, porém, já não sabe em que acredita, sabe apenas que sofre. O romance de Wesley Peres é o relato – minucioso, precioso, paranoico – de seu sofrimento. Felipe sente-se sempre obrigado a se submeter a exames médicos que investiguem seu “câncer”, mas tem horror às máquinas que, para examiná-lo, invadem seu corpo. Os próprios exames, assim, se tornam parte de sua doença. A paranoia devora tudo a seu redor: nada escapa. A própria escrita de Felipe “sofre” da doença que a move. Os limites se rompem. Já não sabe, sequer, o que é sofrer, embora sofra todo o tempo.

Se a alma “é um efeito do corpo”, como imagina, só resta a Felipe, o sofredor, redobrar a atenção sobre o corpo. É um compositor de sucesso, que recebe prêmios importantes – mas a música é apenas um intervalo que, em vez de aliviar, sublinha e contorna sua dor. Acredita Felipe que o câncer “é o modo ortodoxo de o corpo morrer-se”. Seria a morte natural – todas as outras não passariam de variações, ou mascaramentos do cancro. Sua narrativa é o relato do que define como “um apocalipse pessoal”. Toda morte é pessoal, toda morte é vivida na mais absoluta solidão. Escrever sobre ela é uma tentativa, de antemão fracassada, de dividir o indivisível.

Felipe frequenta um psicanalista para tratar daquelas que considera suas três doenças mais graves: o gosto pelos excessos, pela tinta negra da melancolia e pelo “pesadelo azul” de pensar obsessivamente na morte. Conta com o apoio da namorada Ana, que luta, sem sucesso, para conter seus “pensamentos cancerígenos”. Felipe vê a paixão, igualmente, não como uma escolha, mas como algo de que sofre. Uma doença, portanto. O corpo físico seria, antes de tudo, “o portador da morte” e por isso ela se espalha inevitavelmente por todos os lados, inclusive pelo amor.

Para Felipe – seguindo ao pé da letra o Bhagavad Gita dos hindus – o corpo humano estaria marcado pela chaga de nove buracos. “A sabedoria?”, ele se pergunta. E para responder cita o filósofo romeno Émile Cioran: “A sabedoria seria sofrer dignamente a humilhação que nos infligem nossos nove buracos”. A forte escrita de Wesley Peres é transpassada por detalhes bruscos e mórbidos a respeito da realidade física. Sua linguagem oscila entre a elegante meditação filosófica e a descrição quase obscena da realidade física. Não é um romance fácil de ler, não só porque nos choca, mas porque deixa marcas profundas na falsa placidez de nosso espírito.

A morte é azul porque esta é a cor provocada na visão humana pela radiação. O azul perde, assim, todos os seus atributos românticos, perde a suavidade e se torna uma cor pesada e fatal. Tudo na vida de Felipe se contamina por esse azul que é dor e doença. Mesmo o amor: “Amar é dar aos outros o próprio inferno”, define. Vasculhando o espírito do personagem Felipe, um minucioso Wesley Peres pratica, assim, uma espécie dolorida de “realismo interior”. Como se o objeto de sua escrita fosse não apenas as vísceras do corpo, mas as vísceras da alma. Nada escapa. Certa vez, seu personagem sonha com Deus “e ele era feio e tinha olhos cifrados e que produziam cifras dentro de cifras, um ciframento infinito, até atingir um ponto maciço de ciframento que equivaleria ao terror”. Um Deus que é puro terror: pode haver condenação mais definitiva?

A incansável Ana tenta arrastar Felipe de volta para o presente, livrando-o das projeções que contaminam seu futuro, mas nada consegue. “O bom mesmo é não ter esperança”, ela insiste, sabendo que para o amado a esperança não passa da espera da morte. Já Felipe, se continua a escrever, não é na esperança de preencher seu vazio, mas de produzir o que chama de um “vazio mediador”. Ele o define como “um vazio que frequente os vazios do leitor”. Arrasta assim a nós todos, seus leitores, para o interior de sua doença. Não busca testemunhas, mas cúmplices que afundem ao seu lado.

Para Felipe, a “pequena morte” não é – como a entendemos normalmente – o gozo sexual, mas cada pequeno movimento silencioso que antecipa a falência de cada órgão do corpo humano. Ela transcorre em zonas inacessíveis ao pensamento e à razão. O corpo não pensa, o corpo é. Agarra-se à literatura na esperança de que ela possa penetrar essas regiões inacessíveis à mente. A literatura como uma ponte de acesso a algo de que a razão não dá conta. A literatura como cura do corpo: eis a esperança última do personagem de Wesley Peres.

Agindo assim, o próprio Wesley, o autor, faz uma aposta radical na potência da escrita. Que não passaria de um instrumento imaterial, mas eficaz, para costurar os fracassos da carne.


22.9.12

DIÁRIOS I ( sábado )


/ O sentido comum, ou a massa macia do discurso religioso /





Há coisas que são mesmo tristes. A realidade é uma delas. Não é novidade o fato de a realidade padecer, em sua tessitura, dessa pasta insossa chamada senso ou sentido comum.


Evidente que o sentido comum é mais do que um. Poderíamos dizer que há o sentido comum, por exemplo, que constitui a realidade do erudito e a do iletrado — e, mesmo assim, seria dizer de um modo equivocado, pois a categoria “erudito” e “iletrado” comporta subcategorias inquietas e difíceis de precisar. Enfim. Há sempre os limites das categorias, dos quais nos envergonhamos, parece, a ponto de sempre, monotonamente, repetirmos a advertência que acabo de fazer.


Pastas insossas são como travesseiros ideais, nem muito macios, nem muito duros, nem muito baixos, nem muito altos: excelentes soníferos, afinal. E, outro afinal: sabemos bem como soníferos são massivamente consumidos, como são um sucesso de vendas. Pois bem, o sentido comum é, dentre os soníferos, o mais consumido, o de maior sucesso.


Bom, se por um lado o sentido comum varia entre categorias frágeis como "erudito" e "iletrado", por outro, há uma invariante que parece ser encontrada em todos os tubos dessa pasta sonolenta. Esta invariante, este algo, ao que parece, é o pacote das virtudes religiosas (as cristãs, sobretudo, se estamos no ocidente): modéstia, moderação, bondade, piedade, amor ao Homem (como se este não fosse o mais frágil dentre todos os universais), amor a qualquer coisa “amorável” — a lista dos componentes de tal pacote seria quase infinita e, como indica a pequena amostragem, redundante.


Mesmo os ateus, os cientistas, mesmo os cientistas-ateus; tanto os de direita quanto os de esquerda;  sejam artistas peruanos, ou jazzistas tchecos; de cabo a rabo, de rabo a cabo, quando menos ou mais se espera, levamos uma estocada dessa massa macia (perdão pela aliteração (perdão pela rima), insossa, religiosa, cristã, sonolenta como sexo com gosto de hóstia.


Fala-se tanto de que vivemos em tempos de pluralidade, multiplicidade e outros etcéteras em voga, e, ao que parece, só uma mesma cantilena mononuclear parece derramar pelas paredes da realidade.


Acho mesmo insalubre estar sitiado por tanta virtude. Ao menos, há alguns indícios de que eu esteja acordado.



21.4.12

Monte Castelo — Conto


Por Wesley Peres

“O Monte Castelo já não era mais um simples objetivo a conquistar, mas um desafio a enfrentar e executar, cujo desfecho ou seria a consagração apoteótica ou a ruína acabrunhadora.”

Para o Coronel Manoel Thomaz Castello Branco, oficial de comunicações do 1º Regimento de Infantaria da Força Expedicionária Brasileira, a tomada de Monte Castelo foi mais do que só uma manobra militar bem-sucedida. (Revista Veja, edição especial, 1945)

1.
Segundo lemos em Platão, Diotima, a Sibila mais famosa de todos os tempos, Diotima costumava dizer que só os tolos não sentem inveja nem se envaidecem, e de que nisso consiste a estultice de amados e amadores. Quando se tem uma história trágica, sempre a sensação de que se está acordado, enquanto todos dormem. Bem, então se tem uma história. Quanto ao valor de se ter ou não uma história, isso é outra coisa. H. se ocupa desses pensamentos que o ocupam, que ocupam seu tempo ( ele mesmo transcorrendo, pulsando, aproximando-se da morte ). H. se ocupa desses pensamentos enquanto faz uma coisa tão prenhe de enquanto: almoçar. Com uma delicadeza que não possui, maneja os talheres a fim de produzir distância entre o osso e a carne de frango. O garfo vai ganhando o tom amarelengordurado que, justamente, intensifica em H. a tendência a pensar coisas do tipo Quando se tem uma história trágica parará-parará.
H. sabe que vive a vida que se espera de alguém que tenha tais pensamentos intensificados por tais matérias amarelengorduradas, e isso é estar acordado enquanto todos dormem, e isso é insônia, uma espécie de, vá lá, uma espécie de insônia existencial. Não tem a sorte de ser idiota. Não tem a sorte de ser ignorante. Nenhuma coisa nem outra, ao menos. Então que come a carne de frango praticada naquele restaurantezinho de esquina de centro de cidade, mas com comidinha bem feitinha. Olha para o garfo e se pergunta se aquilo é algo atávico ou o quê. Ninguém da família, além dele, ninguém que ele simplesmente conheça tem o ódio asco a comidas amarelentas, contaminadas com açafrão. Mesmo assim come. Não conhece mesmo alguém que tenha ódio asco de algum tipo de comida e que, mesmo assim, come.
Ele come. Se deu conta, de si para si e há tempos, que a vida é mesmo algo a que a gente se apega de um modo irracional, não se sabe por que mesmo, ele, ao menos, não sabe, não faz idéia de por que teme tanto a morte, se acha a vida chata, chatíssima, monocórdia, plana, linear e, claro, amarelenta — impressão intensificada por esse sol sólido da cidade em que mora, mais quente do que a urina do Diabo.
O sol sólido constante amarelento feito urina do Diabo, o apego ao medo da morte era a coisa em torno da qual se organizava o que H. era e, mesmo e sobretudo, o que ele não era. Evidente, ele tinha um trabalho e trabalhava, devia comer e comia, andar e andava, namorar e namorava Ana e Ana possuía ou era possuída por um corpo tipo violão do qual ela reclamava muito sabe-se lá por quê, porque, afinal, nenhum homem reclamara nem reclama, deve ter algo a ver com a mãe também de corpo violão cujas reclamações entraram ouvidoadentro de Ana desde quando ela tinha ouvidos.
Sim, existia o corpo violão de Ana. E, Ana, além disso, falava coisas, fazia coisas que muito apraziam a ele, H.  Ana, uma evangélica bem desevangelizada na cama, graças ao bom Deus e suas lendárias linhas tortas. Existia um trabalho, H. era escrivão. Não, não, sua vida não era mesmo das piores, nem lhe faltava um dos pés nem uma das mãos parará-parará. Que merda esses pensamentos idiotas que, quando a gente pensa, já fomos pensados por eles — os pensamentos idiotas.
Sim. Não. Não era idiota, sabia. Mas se sentia idiota de algum modo. Ou de todos os modos. Era o cara que todo mundo achava inteligente, mas que não usava todo o seu potencial. Que caralho é isso, POTENCIAL. Gostava mesmo era do evangelismo desevangelizado de Ana — nada potencial, mas presente encarnado em suas coxas grossas e cintura fina finíssima e seios muito pequenos e o rosto mais ou menos bonito o que dava mais tesão ainda e sua inteligência medular, e era isso que, de certo modo, do modo possível, o enredava em sua vida chata monocórdia.


2.
Quando se tem uma história trágica. Bem, então se tem uma história. Quanto ao valor de se ter ou não uma história, isso é outra coisa. H. se ocupa desses pensamentos que o ocupam, que ocupam seu tempo (ele mesmo transcorrendo, pulsando, aproximando-se da morte). H. se ocupa desses pensamentos enquanto faz uma coisa tão prenhe de enquanto: almoçar. Com uma delicadeza que não possui, maneja os talheres a fim de produzir distância entre o osso e a carne de frango. O garfo vai ganhando o tom amarelengordurado — e foi mesmo nesse dia em que ele observou quão amarelos engordurados são os garfos amarelo-engordurados, que ele passou, sabe-se lá por que e apesar das coxas grossas e da cintura fina finíssima de Ana e do rosto mais ou menos bonito, o que dava mais tesão ainda e sua inteligência medular, foi mesmo nesse dia que ele passou, e ele não entendia isso, ele passou a, na hora de comer Ana, na hora que o pau dele sentia o por dentro molhado dela, ele passou a associar o por dentro molhado dela ao amareloengordurado dos garfos amareloengordurados e, então, um certo nojo náusea sabe-se lá que nome tem ou deixa de ter isso, sabe-se lá por quê, ele passou a broxar, coisa que nunca tinha acontecido antes — quando ele com Ana.

3.
Mas não isso ainda o trágico da história trágica entre Ana e H. O problema todo, a máxima perturbação começou quando, dias depois, as broxadas cessaram e, ao contrário, pensar no por dentro molhado de Ana ser em tom amareloengordurado, ao contrário, radicalmente ao contrário, causou em H. um tesão nunca dantes sentido, um reviramento, um ultrapassamento que, enquanto transando e, sobretudo, na hora-orgasmo, fazia-o gozar de tal modo que doía, e cada vez mais doía, e quanto mais doía, mais ele gozava e o gozo dele passou a deixar Ana numa espécie de estado de gozo ininterrupto, ela gozava com o gozo dele, de modo que ele, H., e ela, Ana, transaram-transavam N vezes ao dia, e entre uma e outra transa eles se apalpavam e se lambiam.
Mas isso era só o começo do trágico da história trágica entre Ana e H.
Sim, sim. Os dois de acordo, como se, entre homem e mulher, harmonia existisse: N vezes ao dia transavam, N vezes gozavam, e entre uma e outra transa se apalpavam e se lambiam. E se mordiam, e a circunscrição do que podia se alargava largamente (porém, um porém era mantido), e se alargava também o pedaço da noite e do dia em que Ana e H. gozavam um do corpo do outro do jeito que um e outro bem entendia.
Cada vez menos se alimentavam. Cada vez menos bebiam água. Nem mesmo se lembravam de emprego dinheiro e tal. Ambos demitidos, e daí. Havia o FGTS e outros direitos e etc. Havia a morte — que não de um tempo-lugar incerto, mas de dentro do corpo humano, cada vez mais, os dois bem sabiam — havia a morte que aproxima o corpo de seu fim. Nem um nem outro se enganava, a crença de ambos se resumia à palavra extinção. Extinção em seu pouco a pouco, ou num súbito desaviso, extinção inscrita no instantâneo necessário para da vida se passar à morte.
E um corpo-morto, disse ela a ele, um corpo morto não goza. Frase-epígrafe definitiva do radical hermetismo em que se fecharam aqueles dois corpos, fingindo-se de um.

4.
A dor que desatina sem doer é o trágico da história trágica, ou pelo menos aquela última gota que move o mundo mais do que um mar inteiro ocorreu no dia em que, sem mais nem menos, como tudo na vida em geral, no dia, ou melhor, na noite em que ambos resolveram ir ao cinema e, então, assistiram a um filme lá que eles nem prestaram atenção no nome, mas prestaram atenção no filme, e depois de muitos dias, enfim, passaram um tempo sem transar ou parari-parará.
Mas prestaram atenção no maldito filme estrelado por Marlon Brando e uma Maria sabe-se lá o quê, e prestaram muita, muitíssima atenção em uma cena com manteiga, que nada tinha ou tem a ver com as propagandas família feliz de margarina de manteiga e sabe-se lá mais o quê, e H., sobretudo, prestou atenção demais, e sabe-se lá por que transmutações químico-psíquico-sabe-se-lá-mais-o-quê ele passou, mas o certo é que enlaçou de modo inextricável a sua intricada fantasia amareloengordurada ao amareloengordurado da cena sodomagomorrenta do filme e, então, ele, H., queria porque queria, questão de vida ou morte, meter no cu de Ana, e Ana veio que com três que-qui-cê-tá-pensando-de-mim e, então, H. não meteu o pau no cu de Ana, e tinha sonhos amareloengordurados com o cu de Ana, e poluções noturnas, e já não conseguia mais nem mesmo transar com Ana, pois só pensava em.

5.
Uma semana depois da fatídica sessão de cinema, H. veio me procurar no consultório. Falou de muitas coisas amareloengorduradas até chegar ao cu de Ana, até dizer que em toda sua vida e em toda sua morte (disse exatamente assim) não há nada que ele desejava pensava a não ser em meter no cu de Ana e esporrar-se para dentro do cu de Ana e que sabia que isso era loucura mais que para além do amor e de Ana estava o cu de Ana, e que isso era um desejo de morte e que, além do mais, já não se disse que: o amor é um ter com quem nos mata?

6.
Depois, me disse que tinha algo a me contar que só podia contar por escrito, e que tinha escrito sobre como seria me contar aquilo, como seria aquilo, e qual seria minha reação depois de saber aquilo e etc.:

Um dia, assim, a gente andando, ou parado, ou parado e andando, numa rua, ou na sala de casa, ou na cozinha do vizinho, da vizinha, comendo macarrão ou a. Um dia, assim, um sol e meio, Deus se dizendo pelo vento que não sopra. Um dia, sem mais nem menos, sem mais ou menos, sem talvez. Um dia, o indicador no nariz, trabalhando ferozmente, modorra pra caralho e, então, a gente descobre.
A morte.
Disse isso pro analista e o analista riu. Riu. Sim, a gente um dia descobre que morre, que a máquina de morrer trabalha mansamente. Modorra sem caralho, na assepsia da sala arcondicionada do analista. Ele riu. Evidente que tudo o que eu dissesse e o que eu não dissesse seria usado contra mim.
Eu e Ana, nunca nada de trepada por trás e no. E era isso que a gente discutia, na cozinha, quando eu descobri. Com grande retardo, sim. Simplesmente, por volta das três e quinze, eu soube.
Eu estava de costas. Olhos para o fora da janela. Ouvi um pã e só. Depois vi. Ana no chão, de costas, na mão o pote de manteiga, e aquela sensação idiota de que os vivos são mais belos quando mortos, e de que só o amor, só o amor conhece a verdade.



28.11.11

CASA ENTRE VÉRTEBRAS — Fragmento n°30


(30.)
 A construção do nome que nomeia o intervalo, a suspensão da familiaridade com todos os elementos que respiro, é nessa asfixia que há alguma liberdade possível, quase nenhuma. É nessa asfixia que sou um tanto quanto humano sem me envergonhar disso. Foi nessa asfixia que, pela primeira vez, de fato dormi com direito a sonhar, sonhar mesmo, não o sonho construtivo que enseja concretude, mas o sonho, o umbigo implausível, o instante de um exílio sem a menor esperança, ou, para ser mais exato, o sonho sem o menor desejo de estar de volta. Nomear, às vezes, é construir o próprio exílio.


24.1.11

OS SONS ASSUSTADORES QUE OS PÁSSAROS CONSTRÓEM

Qualquer constelação que lhe ocorre num lapso, lembra-lhe as modulações do corpo, as pequenas rangeduras, nem escutadas, que inscrevem, na memória gelada do mundo, a mortificação tão viva dessa mulher, para quem olho, sabendo-a bela e jovem e que mesmo uma bela jovem é velha o suficiente para morrer. Ela olha para o mundo e sabe bem que só da coisa inerte a morte se ausenta, então, ela sorri e agradece a alguma divindade ausente (pleonasmo), o fato de a decomposição onipresente ser o mecanismo principal de todo e qualquer palimpsesto orgânico. Hoje pela manhã, quando ela me ligou, conversamos sobre futebol e origamis e obviedades do sr. Assange, sobre o vinho que não tomamos ontem e os olhos inexistentes do monstro do lago Ness e sobre os sons assustadores que os pássaros constróem cotidianamente no espaço entre a minha casa e a dela, o que, naturalmente, nos levou ao assunto “decomposição de todas as coisas vivas”. A ela, é bom que saibam, nunca lhe ocorre Deus, o que lhe diz respeito são as artérias das pedras, as rugas dos lagartos, a torção do tornozelo de Maria Sharapova (mulherzinha antipática, ela diz) e alguma chuva leve na tarde de Amsterdã ou de Araxá. Seus lapsos, nos quais lhe ocorrem constelações de todas as estirpes, sempre produzem, em mim, articulações sintáticas e sinápticas que desabam, líquidas, sobre o meu corpo, produzindo uma espécie de chuva que dissolve, parcial e momentaneamente, este nódulo duro — ser a coisa-homem.