21.4.12

Monte Castelo — Conto


Por Wesley Peres

“O Monte Castelo já não era mais um simples objetivo a conquistar, mas um desafio a enfrentar e executar, cujo desfecho ou seria a consagração apoteótica ou a ruína acabrunhadora.”

Para o Coronel Manoel Thomaz Castello Branco, oficial de comunicações do 1º Regimento de Infantaria da Força Expedicionária Brasileira, a tomada de Monte Castelo foi mais do que só uma manobra militar bem-sucedida. (Revista Veja, edição especial, 1945)

1.
Segundo lemos em Platão, Diotima, a Sibila mais famosa de todos os tempos, Diotima costumava dizer que só os tolos não sentem inveja nem se envaidecem, e de que nisso consiste a estultice de amados e amadores. Quando se tem uma história trágica, sempre a sensação de que se está acordado, enquanto todos dormem. Bem, então se tem uma história. Quanto ao valor de se ter ou não uma história, isso é outra coisa. H. se ocupa desses pensamentos que o ocupam, que ocupam seu tempo ( ele mesmo transcorrendo, pulsando, aproximando-se da morte ). H. se ocupa desses pensamentos enquanto faz uma coisa tão prenhe de enquanto: almoçar. Com uma delicadeza que não possui, maneja os talheres a fim de produzir distância entre o osso e a carne de frango. O garfo vai ganhando o tom amarelengordurado que, justamente, intensifica em H. a tendência a pensar coisas do tipo Quando se tem uma história trágica parará-parará.
H. sabe que vive a vida que se espera de alguém que tenha tais pensamentos intensificados por tais matérias amarelengorduradas, e isso é estar acordado enquanto todos dormem, e isso é insônia, uma espécie de, vá lá, uma espécie de insônia existencial. Não tem a sorte de ser idiota. Não tem a sorte de ser ignorante. Nenhuma coisa nem outra, ao menos. Então que come a carne de frango praticada naquele restaurantezinho de esquina de centro de cidade, mas com comidinha bem feitinha. Olha para o garfo e se pergunta se aquilo é algo atávico ou o quê. Ninguém da família, além dele, ninguém que ele simplesmente conheça tem o ódio asco a comidas amarelentas, contaminadas com açafrão. Mesmo assim come. Não conhece mesmo alguém que tenha ódio asco de algum tipo de comida e que, mesmo assim, come.
Ele come. Se deu conta, de si para si e há tempos, que a vida é mesmo algo a que a gente se apega de um modo irracional, não se sabe por que mesmo, ele, ao menos, não sabe, não faz idéia de por que teme tanto a morte, se acha a vida chata, chatíssima, monocórdia, plana, linear e, claro, amarelenta — impressão intensificada por esse sol sólido da cidade em que mora, mais quente do que a urina do Diabo.
O sol sólido constante amarelento feito urina do Diabo, o apego ao medo da morte era a coisa em torno da qual se organizava o que H. era e, mesmo e sobretudo, o que ele não era. Evidente, ele tinha um trabalho e trabalhava, devia comer e comia, andar e andava, namorar e namorava Ana e Ana possuía ou era possuída por um corpo tipo violão do qual ela reclamava muito sabe-se lá por quê, porque, afinal, nenhum homem reclamara nem reclama, deve ter algo a ver com a mãe também de corpo violão cujas reclamações entraram ouvidoadentro de Ana desde quando ela tinha ouvidos.
Sim, existia o corpo violão de Ana. E, Ana, além disso, falava coisas, fazia coisas que muito apraziam a ele, H.  Ana, uma evangélica bem desevangelizada na cama, graças ao bom Deus e suas lendárias linhas tortas. Existia um trabalho, H. era escrivão. Não, não, sua vida não era mesmo das piores, nem lhe faltava um dos pés nem uma das mãos parará-parará. Que merda esses pensamentos idiotas que, quando a gente pensa, já fomos pensados por eles — os pensamentos idiotas.
Sim. Não. Não era idiota, sabia. Mas se sentia idiota de algum modo. Ou de todos os modos. Era o cara que todo mundo achava inteligente, mas que não usava todo o seu potencial. Que caralho é isso, POTENCIAL. Gostava mesmo era do evangelismo desevangelizado de Ana — nada potencial, mas presente encarnado em suas coxas grossas e cintura fina finíssima e seios muito pequenos e o rosto mais ou menos bonito o que dava mais tesão ainda e sua inteligência medular, e era isso que, de certo modo, do modo possível, o enredava em sua vida chata monocórdia.


2.
Quando se tem uma história trágica. Bem, então se tem uma história. Quanto ao valor de se ter ou não uma história, isso é outra coisa. H. se ocupa desses pensamentos que o ocupam, que ocupam seu tempo (ele mesmo transcorrendo, pulsando, aproximando-se da morte). H. se ocupa desses pensamentos enquanto faz uma coisa tão prenhe de enquanto: almoçar. Com uma delicadeza que não possui, maneja os talheres a fim de produzir distância entre o osso e a carne de frango. O garfo vai ganhando o tom amarelengordurado — e foi mesmo nesse dia em que ele observou quão amarelos engordurados são os garfos amarelo-engordurados, que ele passou, sabe-se lá por que e apesar das coxas grossas e da cintura fina finíssima de Ana e do rosto mais ou menos bonito, o que dava mais tesão ainda e sua inteligência medular, foi mesmo nesse dia que ele passou, e ele não entendia isso, ele passou a, na hora de comer Ana, na hora que o pau dele sentia o por dentro molhado dela, ele passou a associar o por dentro molhado dela ao amareloengordurado dos garfos amareloengordurados e, então, um certo nojo náusea sabe-se lá que nome tem ou deixa de ter isso, sabe-se lá por quê, ele passou a broxar, coisa que nunca tinha acontecido antes — quando ele com Ana.

3.
Mas não isso ainda o trágico da história trágica entre Ana e H. O problema todo, a máxima perturbação começou quando, dias depois, as broxadas cessaram e, ao contrário, pensar no por dentro molhado de Ana ser em tom amareloengordurado, ao contrário, radicalmente ao contrário, causou em H. um tesão nunca dantes sentido, um reviramento, um ultrapassamento que, enquanto transando e, sobretudo, na hora-orgasmo, fazia-o gozar de tal modo que doía, e cada vez mais doía, e quanto mais doía, mais ele gozava e o gozo dele passou a deixar Ana numa espécie de estado de gozo ininterrupto, ela gozava com o gozo dele, de modo que ele, H., e ela, Ana, transaram-transavam N vezes ao dia, e entre uma e outra transa eles se apalpavam e se lambiam.
Mas isso era só o começo do trágico da história trágica entre Ana e H.
Sim, sim. Os dois de acordo, como se, entre homem e mulher, harmonia existisse: N vezes ao dia transavam, N vezes gozavam, e entre uma e outra transa se apalpavam e se lambiam. E se mordiam, e a circunscrição do que podia se alargava largamente (porém, um porém era mantido), e se alargava também o pedaço da noite e do dia em que Ana e H. gozavam um do corpo do outro do jeito que um e outro bem entendia.
Cada vez menos se alimentavam. Cada vez menos bebiam água. Nem mesmo se lembravam de emprego dinheiro e tal. Ambos demitidos, e daí. Havia o FGTS e outros direitos e etc. Havia a morte — que não de um tempo-lugar incerto, mas de dentro do corpo humano, cada vez mais, os dois bem sabiam — havia a morte que aproxima o corpo de seu fim. Nem um nem outro se enganava, a crença de ambos se resumia à palavra extinção. Extinção em seu pouco a pouco, ou num súbito desaviso, extinção inscrita no instantâneo necessário para da vida se passar à morte.
E um corpo-morto, disse ela a ele, um corpo morto não goza. Frase-epígrafe definitiva do radical hermetismo em que se fecharam aqueles dois corpos, fingindo-se de um.

4.
A dor que desatina sem doer é o trágico da história trágica, ou pelo menos aquela última gota que move o mundo mais do que um mar inteiro ocorreu no dia em que, sem mais nem menos, como tudo na vida em geral, no dia, ou melhor, na noite em que ambos resolveram ir ao cinema e, então, assistiram a um filme lá que eles nem prestaram atenção no nome, mas prestaram atenção no filme, e depois de muitos dias, enfim, passaram um tempo sem transar ou parari-parará.
Mas prestaram atenção no maldito filme estrelado por Marlon Brando e uma Maria sabe-se lá o quê, e prestaram muita, muitíssima atenção em uma cena com manteiga, que nada tinha ou tem a ver com as propagandas família feliz de margarina de manteiga e sabe-se lá mais o quê, e H., sobretudo, prestou atenção demais, e sabe-se lá por que transmutações químico-psíquico-sabe-se-lá-mais-o-quê ele passou, mas o certo é que enlaçou de modo inextricável a sua intricada fantasia amareloengordurada ao amareloengordurado da cena sodomagomorrenta do filme e, então, ele, H., queria porque queria, questão de vida ou morte, meter no cu de Ana, e Ana veio que com três que-qui-cê-tá-pensando-de-mim e, então, H. não meteu o pau no cu de Ana, e tinha sonhos amareloengordurados com o cu de Ana, e poluções noturnas, e já não conseguia mais nem mesmo transar com Ana, pois só pensava em.

5.
Uma semana depois da fatídica sessão de cinema, H. veio me procurar no consultório. Falou de muitas coisas amareloengorduradas até chegar ao cu de Ana, até dizer que em toda sua vida e em toda sua morte (disse exatamente assim) não há nada que ele desejava pensava a não ser em meter no cu de Ana e esporrar-se para dentro do cu de Ana e que sabia que isso era loucura mais que para além do amor e de Ana estava o cu de Ana, e que isso era um desejo de morte e que, além do mais, já não se disse que: o amor é um ter com quem nos mata?

6.
Depois, me disse que tinha algo a me contar que só podia contar por escrito, e que tinha escrito sobre como seria me contar aquilo, como seria aquilo, e qual seria minha reação depois de saber aquilo e etc.:

Um dia, assim, a gente andando, ou parado, ou parado e andando, numa rua, ou na sala de casa, ou na cozinha do vizinho, da vizinha, comendo macarrão ou a. Um dia, assim, um sol e meio, Deus se dizendo pelo vento que não sopra. Um dia, sem mais nem menos, sem mais ou menos, sem talvez. Um dia, o indicador no nariz, trabalhando ferozmente, modorra pra caralho e, então, a gente descobre.
A morte.
Disse isso pro analista e o analista riu. Riu. Sim, a gente um dia descobre que morre, que a máquina de morrer trabalha mansamente. Modorra sem caralho, na assepsia da sala arcondicionada do analista. Ele riu. Evidente que tudo o que eu dissesse e o que eu não dissesse seria usado contra mim.
Eu e Ana, nunca nada de trepada por trás e no. E era isso que a gente discutia, na cozinha, quando eu descobri. Com grande retardo, sim. Simplesmente, por volta das três e quinze, eu soube.
Eu estava de costas. Olhos para o fora da janela. Ouvi um pã e só. Depois vi. Ana no chão, de costas, na mão o pote de manteiga, e aquela sensação idiota de que os vivos são mais belos quando mortos, e de que só o amor, só o amor conhece a verdade.



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