22.9.12

DIÁRIOS I ( sábado )


/ O sentido comum, ou a massa macia do discurso religioso /





Há coisas que são mesmo tristes. A realidade é uma delas. Não é novidade o fato de a realidade padecer, em sua tessitura, dessa pasta insossa chamada senso ou sentido comum.


Evidente que o sentido comum é mais do que um. Poderíamos dizer que há o sentido comum, por exemplo, que constitui a realidade do erudito e a do iletrado — e, mesmo assim, seria dizer de um modo equivocado, pois a categoria “erudito” e “iletrado” comporta subcategorias inquietas e difíceis de precisar. Enfim. Há sempre os limites das categorias, dos quais nos envergonhamos, parece, a ponto de sempre, monotonamente, repetirmos a advertência que acabo de fazer.


Pastas insossas são como travesseiros ideais, nem muito macios, nem muito duros, nem muito baixos, nem muito altos: excelentes soníferos, afinal. E, outro afinal: sabemos bem como soníferos são massivamente consumidos, como são um sucesso de vendas. Pois bem, o sentido comum é, dentre os soníferos, o mais consumido, o de maior sucesso.


Bom, se por um lado o sentido comum varia entre categorias frágeis como "erudito" e "iletrado", por outro, há uma invariante que parece ser encontrada em todos os tubos dessa pasta sonolenta. Esta invariante, este algo, ao que parece, é o pacote das virtudes religiosas (as cristãs, sobretudo, se estamos no ocidente): modéstia, moderação, bondade, piedade, amor ao Homem (como se este não fosse o mais frágil dentre todos os universais), amor a qualquer coisa “amorável” — a lista dos componentes de tal pacote seria quase infinita e, como indica a pequena amostragem, redundante.


Mesmo os ateus, os cientistas, mesmo os cientistas-ateus; tanto os de direita quanto os de esquerda;  sejam artistas peruanos, ou jazzistas tchecos; de cabo a rabo, de rabo a cabo, quando menos ou mais se espera, levamos uma estocada dessa massa macia (perdão pela aliteração (perdão pela rima), insossa, religiosa, cristã, sonolenta como sexo com gosto de hóstia.


Fala-se tanto de que vivemos em tempos de pluralidade, multiplicidade e outros etcéteras em voga, e, ao que parece, só uma mesma cantilena mononuclear parece derramar pelas paredes da realidade.


Acho mesmo insalubre estar sitiado por tanta virtude. Ao menos, há alguns indícios de que eu esteja acordado.



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