O que disseram sobre


O livro-linguagem

"Casa Entre Vértebras", de Wesley Peres, em nenhum momento deixa de ser prosa ou poesia, mas capta e reorganiza o que ambas as modalidades discursivas têm de melhor


Carlos Augusto Silva
Especial para o Jornal Opção



Nesta época em que o hibridismo de gênero estabelecido pelo filósofo hegeliano Emil Staiger já está por se tornar obsoleto nos jargões acadêmicos, deparo-me com uma obra tentadora para o caminho considerado por alguns estudiosos como retró gado. O hibridismo de gênero, sabemos, refere-se à ausência de pureza no que diz respeito à organização estrutural de uma obra literária, ou seja, numa mesma obra podemos encontrar características de mais de um gênero. Assim, não há mais apenas o épico, lírico e dramático, mas experiências literárias em que uma das manifestações predomina esbarrando-se em outras. A obra que nos últimos anos mais me convidou para essa proposta híbrida e que surge como uma espécie de confirmação (mais uma dentre tantas na história literária) é o romance (faço questão de assim o chamar) “Casa Entre Vértebras”, de Wesley Peres.

Não se trata apenas de um fascínio despertado por uma questão teórica. O hibridismo em seu livro não é mero artifício linguístico, efeito especial que pouco ou nada serve à narrativa. Pelo contrário, eu diria que um dos temas mais importantes do romance é a linguagem na qual ele se estabelece. Seu próprio desenrolar tem como mote que prende o leitor a capacidade (ou não) de expressão da voz que fala na obra. Enquanto que num romance construído a partir de enredos e personagens vários nos vemos motivados a prosseguir na leitura para saber no que vai dar aquela trama, em “Casa...” as perguntas são outras: até onde esse sujeito enunciador poderá falar? Qual é o limite dessa investigação de linguagem, ao mesmo tempo tão ontológica e tão sentimental, que a voz empreende? Até onde a tentativa de se materializar em palavra caminhará? Uma das maiores dificuldades para o sujeito da enunciação de “Casa Entre Vértebras” é nominar, por outro lado, um grande desafio do leitor de “Casa...” é em dizer como o livro vai ser nominado. Um romance que não se quer romance, não se apresenta como tal, mas o é não sendo.

Difícil ler essa obra sem pensar em Roland Barthes e dois de seus livros: “Fragmentos de um Discurso Amoroso” e “A Preparação do Romance vol. 01”. Na verdade, essa obra de Wesley se comunica em demasia com o primeiro porque discute o procedimento do sentimento, as diversas modalidades da expressão do discurso amoroso e muitas vezes o encontra na falta, na ausência, nas coisas pequenas, nos espaços encurtados, nas questões fundamentais de anunciação. Já com o segundo o diálogo se dá pelo estudo da ação mínima romanesca, pelo estudo do discurso mais acalentado por imagens e impactos dessas imagens. Não à toa o objeto desse primeiro volume de “A Preparação do Romance” tem como mote o haicai, do qual Wesley parece gostar muito e pelo qual parece ser bastante influenciado, sem com isso perder uma identidade de linguagem muito própria, criativa, inventiva. 

Diz Barthes no início de “Fragmentos...” “Substituímos pois a descrição do discurso amoroso por sua simulação e devolvemos a esse discurso sua pessoa fundamental, que é o eu, a fim de pôr em cena uma enunciação, não uma análise.” Talvez esse seja um dos maiores méritos do livro de Wesley: ele anuncia, mostra bem mais do que analisa. O livro, como triunfo da linguagem que é, se diz de si mesmo. Outra relação clara é a de “Casa Entre Vértebras” com Clarice Lispector, especialmente a Clarice de “A Paixão Segundo G.”, na qual a expressão é um problema também explorado aos limites. Na verdade, toda a tradição literária ocidental que problematiza a escrita, a expressão, a enunciação, em prosa ou verso, está contida na prosa poética de Wesley. O sucesso da obra muito se deve ao fato de que em nenhum momento o livro deixa de ser prosa ou poesia, mas capta e reorganiza o que ambas as modalidades discursivas tem de melhor em suas especificidades e capacidades distintas de expressar as contiguidades da alma humana. 


Em um misto de memória e fruição da mente, signos vários povoam a obra. No próprio título já temos o primeiro: “casa” é a palavra que inicia o título e termina o primeiro “capítulo”, se é que assim podemos chamar os blocos que se enfileiram no decorrer do livro. “Casa”, como muito bem demonstra Heleno Godoy em seu longo e genial poema-livro “A Casa”, é espaço de segredos, de memórias. No caso do projeto de Wesley, locação ideal para a jornada que o livro empreende, fundamentado que é na experiência individual, inacabada e por isso ampla em significados. 

Solidão, ausência, silêncio, tudo isso se coaduna com o signo da “casa”, e a fala é a porta de saída, é a única experiência que pode possibilitar o trânsito da subjetividade nessa teia por demais tensa que é a experiência do encontro consigo mesmo. Wesley Peres, Doutor em psicanálise pela UnB que é, sabe bem do poder da fala, da verbalização das experiências. Nesse ato contínuo da fala seu livro se filia a uma outra figura substancial do século 20, o escritor austríaco Thomas Bernhard. Tanto em “Extinção” quanto em “O Náufrago”, a fala, o pensamento, a nomeação, são fundamentais para a construção da unidade da obra, e mais, o momento da escrita é reconhecido tanto em Bernhard como em Peres como um momento distinto do pensamento e da fala, da materialização oral, sonora das palavras. Tanto é assim que em “O Náufrago” o livro é pensado, mas não escrito, ele existe na trama como projeto. Escrever é um fingimento, um processo outro, não o mero registro do pensamento: proustianamente diferente do viver é o ato da escrita. Diz o sujeito enunciador: “Em carta, sou outro, e também nela estou só. Em casa, sou mais estrangeiro. Em carta, o eu que fala não reconhece o som de suas palavras.” As palavras tem também força arquitetônica: “Este quarto, se alma existe, é minha alma cartografada, operacionalizada. E o que eu digo, desde sempre, é a partir do quarto.” É do espaço que as palavras emanam, e as palavras, com seu poder construtivo, fazem do quarto mais do que um espaço, mas um manancial de onde brotam as palavras que se perguntam, questionam-se e por isso se expandem, poeticamente se acumulando de significado, de poder semântico. 

É do quarto. Espaço dentro do espaço. Cômodo dentro da casa. Íntimo dentro do que é fechado, o particular do particular, o dentro que é dentro do dentro da casa. O âmago. Esses espaços sem gente, vazios tão significativos: gavetas, casa, quarto, o encontro com um nada heideggeriano: “Só sei falar por vazios, por linguagens do não, por amor às ruínas de Deus.” A presença de Heidegger se escandaliza nesse trecho: “Isso me salva de ser só esta voz, me salva (da salvação) de crer que o barro do vaso é mais importante do que o seu vazio, ou de que o vazio é mais importante do que o barro.”

A preocupação de Wesley com a linguagem e os seus desdobramentos tem um caráter que o situa para além da preocupação com a linguagem que qualquer outro escritor tenha. É uma obviedade dizer apenas que a linguagem está em questão. Ela está em Guimarães Rosa, Joyce, Proust, Virginia Woolf, Clarice Lispector. O importante é que aqui, na poesia, na prosa, ou nos “prosemas” de Wesley (como tão bem nominou o poeta e professor da UFG Jamesson Buarque), a enunciação por via da arte, da escrita, a cara da palavra, é uma experiência radical que coloca em jogo sua existência, como se a escritura fosse sua condição de existir, sua forma de contemplar a vida e vencer a morte. 

Em “Palimpsestos”, livro de poemas líricos de Wesley Peres que integra a Coleção Vertentes de 2007, da UFG, o sujeito lírico diz: “Falo para me visitar / O silêncio é quando estou em casa” . Já em seu “Água Anônima”, que venceu o Prêmio Cora Coralina em 2002, encontramos esses versos: “o silêncio escorria sólido / entre as margens / do que você me dizia.”, e no mesmo livro, que é seu primeiro, de certa forma temos pequenas profecias daquela que seria sua primeira obra projetada no cenário nacional. Nas expressões escolhidas achamos vestígios, lascas de vocábulos que reboam em seu título mais importante, e a mesma preocupação com a enunciação: “Então, caminhando através das palavras / — de qualquer plumagem, outras nuas — / voava como as anêmonas, ao nada incompleto: / vértebras do tempo encarnado.”

Num olhar panorâmico vemos uma coerência no sistema literário de Wesley Peres. “Casa Entre Vértebras” está dentro de um projeto que sempre esteve em execução na obra literária desse autor. Não se trata de, como diria João Cabral falando a respeito dos autores que acertam por sorte ou acaso, “tiro nas lebres de vidro do invisível”. O fato de ser seu primeiro romance (ou não), em nada nos aponta para mudança de rumo, nova fase ou algo que o valha. Sempre um arqueólogo da palavra encravada no sujeito, na individualidade rodeada de um silêncio perturbador que lhe parece fatal.

Lendo “Casa Entre Vértebras” corremos o risco de sofrer do que chamo de “ressaca de leitura”. É um daqueles livros que nos exigem intervalo, pausa para começar outra experiência estética, pois levamos tempo para começar a assimilar toda a sua força poética, toda a sua profundidade humana. Este livro, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura 2006, prêmio de envergadura nacional, publicado pela Editora Record, do Rio de Janeiro e distribuído nacionalmente, finalista do Prêmio São Paulo, confirma o que o “Água Anônima” prometia, e faz de seu autor um dos mais importantes e talentosos escritores da literatura feita em Goiás em todos os tempos, e, sem sombra de dúvida, uma das maiores revelações da Literatura Brasileira nos últimos anos. Não fosse o sucesso em Goiás — como disse Tom Jobim a respeito do Brasil —, uma ofensa pessoal, todos os homens de cultura desse Estado já teriam reconhecido isso há muito tempo.

Carlos Augusto Silva é professor e crítico literário. Autor do Dicionário Proust.





ENTRE PEDRA E PELE
Vilma Costa – Rio de Janeiro (originalmente publicado no Jornal Rascunho)


O poema “O lutador”, do livro José, de Carlos Drummond de Andrade, inicia-se com os versos: “Lutar com palavras/ é a luta mais vã./ Entanto lutamos/ mal nasce a manhã”Casa entre vértebras, de Wesley Peres, publicado recentemente pela Record, dramatiza, ou melhor, radicaliza a perspectiva de poeta lutador incansável e fascinado pelo seu sedutor objeto de desejo: a palavra. Trata-se de um romance, nada convencional, construído por fragmentos poéticos em forma de prosa, no qual um narrador, quase sujeito lírico, “ensaia” uma biografia afetiva dirigida a um outro, definido, às vezes, como Ana, a mulher amada, exigente e inatingível. Outras vezes, esse outro sugere seus próprios fantasmas, eus múltiplos e difusos que se insinuam como interlocutores.
Cada um dos seus 163 fragmentos pode ser lido isoladamente, enquanto pequenos poemas. Estes utilizam elementos recorrentes como noite, vento, passado, presente, tempo, infância, loucura, silêncios, vazios, corpo, espiritualidade, Deus, deuses, demônios, casa, vida e morte. Entretanto, a maneira como é construído o texto aponta para uma fruição, se não tranqüila, pelo menos instigante e saborosa das relações estabelecidas entre esses elementos que permeiam a narrativa.
A narratividade do texto é muito delicada e específica. Isto porque tem como eixo a subjetividade de alguém que pretende, através de uma carta, se contar, montar uma trama na qual lembranças, memória, busca de sentidos, desejos e delírios sejam cartografados, mapeados, pontuados entre espaços e tempos da memória e do presente. Em última instância, além disso, esse sujeito busca construir um “sendo”, como elemento central de toda história. Um “sendo” escorregadio e marcado por presenças e ausências, tagarelices e silêncios, contradições e assertividades em seus paradoxos. Daí a predominância da tônica lírica sobre a dramática que, convencionalmente, exige-se de um romance. Esse padrão é transgredido na medida em que a tensão não é estabelecida sobre a ação seqüencial clara de personagens que se movimentam, num tempo e num espaço definidos. Apesar de romper com opadrão de narrativa dramática centrada num enredo linear, a alternativa encontrada pelo escritor não é o que se poderia chamar de original. Esta é uma questão que apesar de não ser relevante para orientação da leitura, ou julgamento crítico da escrita, serve para aproximar, segundo alguns críticos, Wesley de outros autores que trabalharam seus romances dentro dessa perspectiva, desde Clarice Lispector, por exemplo, até outros autores contemporâneos.
Em linhas gerais, longe de pretender inaugurar um novo modo de se dizer, o autor de Casa entre vértebras, coloca-se dentro de um campo da tradição modernista, em suas manifestações contemporâneas, que põe em xeque tanto a concepção de gêneros literários estanques, quanto as de sujeito cartesiano, racionalmente centrado em si mesmo, com uma identidade fixa. A luta com as palavras e o dizer dessa subjetividade também passam pela discussão da crise de representação dos diferentes cenários em que o homem atua e se movimenta para se constituir, questão esta formulada por muitos autores desse início de século. O dizer-se é realizado pelo esforço compulsivo de uma fala intercalada por silêncios, que são pausas necessárias para o “ensaio” de uma escrita que, volta e meia, coloca-se como impossibilidade de criar sentidos. É quando a voz narrativa interrompe a compulsão de dizer e nos surpreende com um “Não, não é bem isso...” Então o que é? Será uma inferência intertextual ao conto “Cenários”, de Sérgio Sant’Anna? Ou será apenas uma coincidência de perspectiva temática ou problemática da narrativa contemporânea? Seja lá o que for, tudo leva a crer que a história presente desse sujeito só pode ser contada dentro da precariedade da linguagem, que inerentemente traça seus enganos e armadilhas. Esse discurso sempre arredio, constituído como a linguagem dos sonhos, da loucura e do inconsciente, longe de configurar uma verdade sobre o sujeito que se diz, apresenta fragmentos e significantes, que se lançam em significados múltiplos, deslocados no tempo, de parciais e precários sentidos.
O único personagem no romance a ter um perfil esboçado é o narrador. O eixo de sua ação reside na luta com as palavras que o mobiliza a delinear o traçado de uma cartografia afetiva. Tarefa, muitas vezes, sísifa, como afirma o personagem. Sísifo fora condenado a arrastar uma pedra imensa até o pico de um monte, para quando estivesse quase chegando, vê-la despencando ribanceira abaixo, tendo que repetir o evento infinitamente. Como no mito grego, recai sobre o narrador a maldição de um trabalho exaustivo, interminável e jamais concluído, mas compulsivo e permanente em sua busca de se saber, de se dizer.
Contudo, a recorrência de algumas palavras, imagens e metáforas não implica a repetição pura e, simplesmente, redundante. A composição ganha novos significados dependendo do momento em que essas imagens surgem e do lugar que ocupam em cada fragmento do enunciado. Assim, a casa e o corpo humano se estruturam como vértebras que sustentam o corpo textual e garantem fios norteadores de sentidos, que se perdem e se encontram como possibilidade de dizer o indizível do discurso de si mesmo e do outro ou outros que se refletem nos cacos de espelhos em fragmentos de vida e de memória.
“Narrar-me, isso eu faço construindo o meu silêncio, empalavro-me... o corpo adensa, o corpo se torna mais corpo, impossível qualquer trama fora dele.” Impossível qualquer leitura fora da leitura desse corpo, que se constitui não só como metáfora, metonímia ou lugar de simbologias, mas é a própria casa do homem que o habita, com ele muitas vezes confundido, com ele interligado por suas vértebras, espaços mínimos de inter-relação e interlocução.
O sujeito que se conta afirma-se como alguém que prefere “viver sintaticamente, deixar as vias semânticas em teias”. Não é à toa a presença de uma aranha pela casa e pelas paredes da memória da infância a atormentar seus dias. Não é gratuita “ essa obsessão por espaços dentro de outros espaços, daí talvez....” o seu “fascínio por estar no entre um e outro espelho,...” a sua “paixão por ler a textura do corpo sem buscar síntese”. Fala por vezes da necessidade e relativa capacidade de estabelecer na vida alguma ordem, alguma racionalidade sobre o caos de silêncios e vazios de sentidos, ou seus excessos e suas teias. Gosta ou prefere “viver sintaticamente como um conjunto de vértebras...”, mas apenas constrói sua casa entre vértebras. Dessa sintaxe só lhe resta a insegurança do entre. Mas é aí que se move, se insere, se inscreve, se escreve enquanto corpo, enquanto sujeito de uma história em construção ou em ruínas de um passado presente nas paredes, nos guardados das gavetas. Situa-se entre a necessidade de ordem e arrumação e a evidência do caos e do absurdo onírico da loucura e da linguagem poética.
A casa e o corpo, portanto, se constituem para além de seu conteúdo semântico e de múltiplos significados, como elementos que permitem a construção sintática do romance. São as vértebras desse corpo textual fragilizado e, ao mesmo tempo, fortalecido pelas vias semânticas em teias. Enquanto a casa é o dentro que guarda o mistério, anuncia um fora que amedronta. O mundo lá fora, dentro dele a casa, dentro da casa o quarto, dentro do quarto paredes e gavetas, dentro das gavetas os guardados esquecidos ou buscados no fundo da memória e do tempo... Dentro de cada um desses espaços há um homem deslocado, inadequado, apaixonado e enlouquecido “sendo”..., tentando se dizer, contradizendo-se, preso entre as vértebras de uma linguagem arredia que mais engana do que esclarece. A casa é um modo de se dizer, o corpo é um modo de se escrever, de se fazer livro, de se deixar ler e de ler o mundo de dentro, de dentro do dentro, de fora de dentro da casa e da vida. E se há algum enigma, ele é “respirado com a pele, com os ossos com as palavras”. “A palavra é a pedra que Sísifo tanto empurra“... Contar-se, neste sentido,  é inventariar as perdas e os ganhos, é “inventar” e “ar” em seus medos e vazios, já que a partir das fraturas, “essa dimensão de enlaces é o ponto comum entre a vida e a morte”.  Narrar-se é a luta mais vã, entanto...  o poeta luta corpo a corpo entre a pedra e a pele, vértebras e poesia, vida e morte.  “...e as horas revestidas de demônios na velocidade de não ser, e a nau de meus olhos que grafa, nas paredes do meu corpo, espaços orvalhados de algum peixe engolindo paisagens arcaicas”.



Sobre "Casa entre Vértebras", 
por Rafael Rodrigues, 
publicado originalmente no Digestivo Cultural



Pouco praticada no Brasil, a prosa poética (ou poesia em prosa, como preferir) pode causar estranhamento ao leitor acostumado à prosa tradicional. O texto é escrito em forma de prosa, mas sua construção é um pouco mais complexa, mais cuidadosa. A escolha das palavras é feita como nos poemas, com um rigor um pouco maior que o da prosa pura. Definir a prosa poética não é a intenção deste texto, mas é necessário um breve divagar: na prosa tradicional, há espaço para imagens poéticas, é claro. Mas nenhum prosador, por melhor que seja, escreve um texto inteiramente ritmado, cadenciado. Do mesmo jeito que um poema não pode ser totalmente livre, por mais livre que ele seja. Um verso não pode ter três, quatro linhas. Se tiver, já não é poema, é poesia em prosa (ou prosa poética).

E, se já não é fácil escrever boa prosa, fazer poesia de qualidade parece ser ainda mais difícil. O que dizer, então, de um autor que escreve um romance em prosa poética (ou poesia em prosa)? No mínimo, que ele é ousado. Os mais conservadores o chamariam de louco. Casa entre vértebras (Record, 2007, 224 págs.), vencedor do Prêmio Sesc de Literatura 2006 na categoria Romance é o livro, e Wesley Peres é o seu autor.

O louco, na verdade, pode ser o protagonista do livro, um homem solitário, que passa os dias escrevendo e fazendo anotações para si mesmo e redigindo rascunhos de cartas para uma mulher sem nome, que em determinado momento resolve chamar de Ana.

As cartas, ou rascunhos, falam sobre a solidão vivida pelo protagonista, sobre sua infância, sobre seus medos, sobre o amor e sobre o ato da escrita. O homem que escreve parece viver num constante estado de melancolia e aflição (ou frustração?), por causa de sua solidão. Não se sabe se essa solidão é eventual, resultante de escolhas (se certas ou erradas, não importa, nem há espaço para tal questionamento, no livro) do protagonista ou se de algum problema psicológico (em algumas passagens o personagem parece ter perdido a razão). O que se sabe é que é um homem complexo, tentando conviver com seus demônios e manter-se vivo (talvez seja esse o motivo que o leva a escrever).

Muito do que um autor pode realizar com um livro depende do personagem que ele escolhe para protagonizá-lo. E o protagonista deCasa entre vértebras dá a Wesley Peres toda a liberdade necessária para criar o que bem entender, desde aliterações a neologismos, mas sem cair no exagero de "inventar uma nova linguagem". É muito mais um "brincar com as palavras". Wesley Peres caminha bem distante dos imitadores de Guimarães Rosa e James Joyce. Fica mais próximo dos seguidores (no bom sentido) de Fernando Pessoa e Franz Kafka.

Casa entre vértebras é uma obra intrigante, porque não se tem absoluta certeza do que se passa com o protagonista, e instigante, porque "cada uma das palavras escritas se endereça a uma outra palavra da mesma carta" e, como uma carta leva a outra, todas têm uma ligação e cada uma delas revela um pouco do personagem.

É um livro ambicioso, sem ser pretensioso. Uma obra que merece ser lida e relida com a atenção e, paradoxalmente, com o descompromisso que só os bons livros merecem e sabem ter.



Um comentário: